Relatos de Experiência

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Desbravando mares de (Re) Criação: A performance contextualizada pedagogicamente

Escrito por Lua Morkay
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Escola: Instituto Federal de Sergipe - Rede Pública Federal
Cidade: Lagarto, sergipe
Nível de Ensino: Ensino Médio
Contato: morkayluana@gmail.com

Esse trabalho é um recorte originado na pesquisa de conclusão de curso, defendida em 2016 no Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal de Sergipe sob o título de “Desbravando mares da (re)criação: a performance contextualizada pedagogicamente, orientada pela Profa. Dra. Maicyra Leão. Teve como objetivo, a investigação teórico-prática da Performance Arte, mais precisamente a recriação de performances (re-enactment) inserida no espaço escolar e foi desenvolvida no Instituto Federal de Sergipe, campus Lagarto, com alunos do ensino médio, cursos técnico, com faixa etária entre 17 a 30 anos. A relevância do projeto foi de tão importância para o instituto que, logo após o primeiro módulo, as aulas de teatro foram direcionadas também para adolescentes da comunidade local.

O Instituto Federal de Sergipe inaugurou, no ano de 1994, o campus no município de Lagarto e em 2009 o CEFET-SE e a UNED uniram-se com a Escola Agrotécnica Federal de Sergipe, transformando-se em Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe – IFS, Campus Lagarto. O campus fica localizado nas proximidades da Rodovia na BR-235, na saída da cidade de Lagarto que fica aproximadamente a 80km da capital Aracaju. Atualmente oferece o ensino médio integrado e profissional, além de cursos superiores de tecnologias, bacharelados e engenharias.

No período de 2013 a meados de 2015, estive à frente das aulas de Teatro no Programa Cultura e Arte, vinculado à Reitoria, com sede em Aracaju – SE, por meio da Pró-Reitoria de Extensão e Pesquisa (PROPEX) e supervisionado pelo Departamento de Relações Institucionais e Extensão (DRI). Inicialmente, o objetivo principal do projeto Programa Cultura e Arte foi fomentar o desenvolvimento das atividades de extensão no Campus na área temática da Cultura e Arte e possibilitar o contato não só dos jovens alunos do Instituto, mas dos servidores do IFS, bem como a comunidade do município de Lagarto. A grande procura e aceitação do público, fez com que houvesse uma mudança no procedimento de inscrição, só podendo participar alunos do instituto e comunidade externa, não ultrapassando o número de 25 inscritos por atividade.

Durante todo o projeto, 25 alunos participaram das aulas, sendo 15 dos cursos de Licenciatura em Física, Matemática, Sistema de Informação, Edificações, Eletromecânica e Desenho de Construção Civil, e 10 oriundos do Colégio Estadual Prof. Abelardo Romero Dantas.

OBJETIVOS

Objetivo Geral

Investigar o potencial pedagógico do re-enactment através do processo de re-criação de Performances  artísticas;

Específicos

Refletir sobre os procedimentos presentes na linguagem do re-enactment na performance e compreender como o mesmo pode estar associado à noção de emancipação e protagonismo no mundo contemporâneo, interligando os possíveis diálogos com o contexto pedagógico; Realizar entrevista com performers e professores de teatro que trabalham com material da pesquisa a fim de investigar as novas abordagens da prática pedagógica, atualizando-se das mesmas; Fomentar a discussão e a reflexão sobre o ensino do teatro e a relação dialógica entre aluno/professor na contemporaneidade; provocar no professor de teatro uma atualização de seus conteúdos, provocando-o ao pensamento crítico-reflexivo de sua metodologia e aplicação refletindo sobre os processos educativos e formativos.

O PROCESSO

Com o objeto de pesquisa já então definido, parti para o planejamento das aulas. Priorizei que no primeiro módulo os alunos experienciassem um contato preliminar com os exercícios teatrais para que tivessem subsídios necessários no entendimento prático e teórico do que iríamos desenvolver no segundo módulo.

No primeiro encontro, busquei conhecer inicialmente as expectativas e objetivos de cada um. E, para a minha surpresa, a grande maioria se diziam estarem insatisfeitos com os cursos que haviam escolhidos e sentiam a necessidade de serem provocados de alguma forma e, que apesar de não terem contato com atividades artísticas, tinham o desejo de experienciar algo relacionado ao universo teatral. Aproveitei este momento de disposição coletiva para então apresentar a proposta do projeto que seria a recriação de algumas performances. Antes que partíssemos para as primeiras discussões e experimentos, expliquei que teríamos quatro meses de aula em torno de exercícios teatrais e que, posteriormente, após a inserção deles na linguagem da performance, iríamos desenvolver intervenções pelo campus a partir de discussões de textos, apreciações de vídeos, proporcionando o contato e identificação deles com os artistas escolhidos para, por fim, finalizarmos com as apresentações.

Como abordagem metodológica de trabalho, estabeleci para esses quatro primeiros meses, categorias de exercícios ambientados na perspectiva pedagógica teatral de Viola Spolin, Augusto Boal, Olga Reverbel, alguns elementos da dança contemporânea, como Contato e Improvisação e elementos presentes na técnica Viewpoints.

Esta primeira etapa foi dedicada à realização de exercícios e jogos de interação advindos da prática teatral como, alongamento e reconhecimento das partes do corpo, caminhada e ocupação de espaços, movimentos da gravidade, eixo, giro, improvisações. A intenção era situá-los no universo teatral e provocá-los à sensações e situações adversas, além de fazê-los reconhecer o corpo dentro do processo de construção artística.

Para o segundo módulo, o planejamento esteve associado à noção de Jogos Performativos: alguns foram adaptados e outros vivenciados por mim, em oficinas e workshop em que pude participar. No que concerne as aulas realizadas neste segundo módulo, parto inicialmente de uma investigação em torno da definição das aulas-situações. Esta ideia, junto às aulas de performance, é articulada pela performer e professora Maicyra Leão, no artigo Aulas Situações: atravessamentos entre situações e aprendizagem. Segundo ela: Como o próprio nome sugere, essas aulas-situações dizem respeito ao estabelecimento de situações em que o estudante é convidado a agir a partir de um determinado dispositivo/acionador de percepção.

 Essas aulas ocorrem no ambiente interno ou externo da sala de aula, e compõem um plano de ensino mais abrangente, visando afincar determinados aspectos de conteúdo ou de assunto. (SILVA, 2015, p 121) Neste sentido, cada aula ficou demarcada por situações-problemas que deveriam ser investigadas de forma prática. Por meio de uma imagem, vídeo, texto, recorte de jornal, elegíamos um tema e a problemática era resolvida e experienciada por todos. Entendemos aqui, uma forma fluida onde o conteúdo é vivenciado por meio de contexto problematizado e o aluno é convidado a resolver por meio de uma participação ativa, neste sentido, prática e coletiva. Este tipo de abordagem redimensiona a relação existente entre o professor/aluno uma vez que ele também é parte da obra e não, um mero espectador.

A exemplo, em uma dessas aulas situações, elegi, como palavra-chave, o termo descontruir, e levei uma imagem da performance Imponderabilia de Marina Abramovic, realizada junto com seu parceiro Ullay. Nesta performance, Marina e Ullay propuseram um jogo radical ao público: se colocaram na porta de entrada de uma galeria, nus, e o público presente, não tendo outro lugar para passar, teria que escolher um dos lados para poder entrar no ambiente. Explicava para eles que, nesta performance, uma câmera foi colocada no objetivo de captar as reações do público que passavam em um telão e, como exercício para entendimento do que estávamos falando, iríamos nos dividir em duplas e experienciar esse estado de presença que ambos os artistas, Marina e Ullay, provocaram em sua performance.

Logo em seguida, pedi para que relatassem em uma folha o percurso que eles haviam feito desde a hora que acordaram até a chegada no IFS para a aula. Poderiam escrever de forma livre e que fossem o mais detalhista possível. Como já havia abordado anteriormente a prática do silêncio, pois eles eram muito dispersos, e, como as aulas ocorriam na parte externa, era necessário o dobro de atenção. Solicitei que permanecessem em silêncio a todo momento, pois era necessário que eles percebessem o grau de exigência que o exercício pedia e observassem as diferenças existes neste exercício e nos demais que havíamos feito no módulo anterior.

Ao utilizar a imagem da ação Imponderabilia de Abramovic e Ullay como dispositivo criativo e, impossibilitados por uma ética vigente no ambiente institucional em que estávamos presentes, posto que a nudez nesse âmbito não seria viável, solicitei que se subdividissem em duplas em que um membro da dupla elegesse algum elemento dissonante que permitisse maior vislumbre para a ação, enquanto o outro se colocaria como agente de registro, às escondidas.

A ação da Marina e Ullay, a priori, aborda uma ruptura entre o uso de espaços convencionais para acontecimentos artísticos, como é o caso de museus. Logo, se dispuseram como objetos que dificultem a passagem e a locomoção na entrada desses locais, criticando-os como ambientações propícias e institucionalizadoras do fazer artístico. Partindo dessa reflexão, as duplas se responsabilizariam em articular planos, ações ou locais que memorassem a performance dispositivo. Ao perceberem aproximações dos demais que observavam, leriam a carta por vez escrita, fazendo uma aproximação simbólica entre a carta, o contexto da ação dispositiva e a escolha dos elementos constituintes do exercício.

No retorno para a Sala na Árvore, socializamos em roda as experiências de cada um e o relato que mais nos chamou atenção foi o da dupla Junior e Estela. Junior passeou durante quinze minutos pelo campus com um par de brincos compridos de Estela onde leu o relato dela, desde quando acordou até a chegada no campus. O objetivo que ele estabeleceu para o exercício, era cumprimentar os amigos, funcionários conhecidos de forma natural, como sempre fazia todas as tardes e ler o relato. O seu ‘jogo’ finalizaria quando alguém o olhasse de forma séria, com expressão de reprovação ou de não aceitação. Ele relata que as pessoas ao olharem automaticamente, percebiam os brincos e, pelo relato ser de Estela, associavam a figura feminina a ele, zombando-o.

Para Estela, o fato de observar de longe foi bastante provocador porque, segundo ela, “deu para perceber como as pessoas verdadeiramente são. O fato de Junior está com meus brincos, lendo o relato do meu dia a dia, não queria dizer nada, afinal de contas, ele estava fardado e muitos associavam como uma atividade da aula de teatro. Mas também percebi como as pessoas realmente se importam com a nossa vida e denigrem a nossa imagem por nada, neste caso, por um brinco, o que poderia ser por uma forma de vestir, ou com quem eu me relaciono”.

Para a aula que antecedeu a apresentação, levei uma frase que está na abertura deste trabalho, no intuito de provocá-los e inspirá-los para a experiência coletiva que teríamos no dia seguinte e, que só na finalização de tudo, pude, verdadeiramente, compreender o sentido de sua potência. A frase é do artista Julian Beck, membro fundador do Living Theatre , lida por mim ao final de um dos exercícios de meditação em que fazíamos sempre a cada encontro que, neste caso, seria o último e aconteceu na biblioteca do campus, pois o dia estava chuvoso e impossibilitou a nossa aula na sala da árvore.

“Não atue. Aja, Não recrie. Crie! Não imite a vida. Viva! Não crie imagens de idolatria. Seja!” Repetia essas palavras enquanto todos estavam em volta de mim, sentados em uma das mesas. O contexto em que a passagem foi retirada, evidenciava um teatro de acontecimentos, cuja dualidade entre o teatro que se decora e o teatro que se vive no real, estava, naquele momento, sendo preparado para apresentar. Queria que eles percebessem a sutiliza por detrás das palavras de Julian e como a ação que eles iriam desenvolver no dia seguinte se assemelhava àquele contexto.

Assumindo uma perspectiva performática da práxis em sala e entendendo a relação que eu estabelecia com o instituto que, neste caso, diferenciava da postura dos demais professores, pois suas aulas eram mais teóricas e seguiam o mesmo padrão de espaço formal de sala de aula e os alunos, já entendendo e familiarizados com a linguagem da performance, elaborei um questionário para eles responderem no intuito de nos aproximarmos coletivamente das demandas que cada um trazia consigo no tocante à relação que eles tinham com o Instituto. Questões como: “Quem é você estando aqui? ” “Quem é você estando fora? “O que te incomoda nesse momento?” “Você gosta do curso que escolheu?”, motivaram o debate em torno dos posicionamentos políticos, sociais, religiosos, não só vinculados à vida pessoal deles mas ao espaço de formação.

A ideia não era apenas chegar a um consenso das respostas que cada um teria, mas, principalmente, tornar visível os diferentes pontos de vistas e a variedade dos discursos que cada um teria estando no mesmo espaço de sala de aula. No coletivo, pensávamos como a performance poderia ser introduzida para questionar e gerar um debate em torno dessas falas.

OS RESULTADOS

 Como resultado, tivemos a I Mostra de Performances do Instituto Federal de Sergipe. Reapresentamos 3 performances, já então bem conhecidas no mundo da performance arte, que são elas:

The artist is presente – intitulada pelo aluno de Meditando 3x com Abramovic (Marina Abramovic)

Airspace - intitulado pelo o aluno No IFS, com o IFS e para o IFS (Shima)

O que é a arte? Para que serve?, de Paulo Bruscky

A AVALIAÇÃO

A Avaliação das aulas se deu de forma processual com a avaliação da participação, presença e engajamento nas atividades. Foi pedido um portfólio online onde eles poderiam expressar tudo que foi vivenciado desde o primeiro dia de aula, até o momento final da intervenção. O que me chamou a atenção foi como a maioria se disse instigado a continuar a praticar a linguagem teatral, mesmo que as aulas chegassem ao fim. Muito estavam já concluindo os cursos e seguiram para outras universidades.

REFLETINDO SOBRE O TRABALHO

 Refletir sobre esses processos me parece fundamental para traçar um caminho afirmativo na descoberta constante de novas possibilidades no ensino/aprendizagem teatral, tornando-o uma prática fluida que está em constante sintonia com as formas inventivas na educação. O que é/está estabelecido tradicionalmente vem sendo fruto de questionamentos da arte da performance que promove novas experiências em busca de linguagens variadas que fomentem inúmeros sentidos promovendo reflexões e suscitando mudanças a partir de movimentos de rupturas.

Entende-se que um ensino de teatro, pautado nesta prerrogativa, busca, antes de tudo, uma contextualização mais apurada quanto às linguagens artísticas em evidência no âmbito contemporâneo, criando vias para uma compreensão crítica, engajada no posicionamento referente à autonomia dos alunos, o que fomenta a produção e a reflexão sobre seu próprio meio ao tempo que pode vir a desterritorializar o que então vem permanecendo adormecido.

Os alunos delinearam as temáticas fugindo de assuntos “polêmicos”, o que tornou o trabalho de certo modo mais contemporâneo, isto é, por mais que eu tentasse introduzi-los, por exemplo, em ações com nudez, religião ou crítica política, eles se voltavam para outra perspectiva identificando-se com criações mais atuais, a exemplo do Shima, Paulo Bruscky.

Em determinado ponto, passou a não me interessar o feedback dos alunos em relação ao aprendizado da temática posto que os desdobramentos apontaram para uma necessidade mais urgente de “catalogação” pedagógica da performance não no sentido de reduzi-la a educação, mas de atravessá-las, sem esvair conceitos. Percebi que é mais importante o processo de aprendizagem e não o aprendizado final.

Foi mais interessante pensar o processo enquanto troca e contato entre aluno –performance e professor do que a produção avaliativa desse aprendizado no formato de ações performativas como seminários, provas, mérito das aulas, ou resultado das aulas. Inicialmente, entendo, que é no resultado que pautei meus argumentos para este trabalho, porém, admito que ao passo dos acontecimentos, bem como, da coleta de materiais sobre as aulas situações, notei essa tendência à valorização do processo em si, uma vez que, na concepção atual deste trabalho, percebo que pesquisa é processo.

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