Relatos de Experiência

Conheça aqui a prática de professores no ensino do Teatro na educação básica! Compartilhe também a sua prática. Conte como foi realizado o seu trabalho em sala de aula de forma simples e didática e sirva de inspiração para outros professores.

 

O processo colaborativo no Ensino do Teatro na escola básica.

Escrito por Janaína Meira Russeff
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Escola: Colégio QI / Particular
Cidade:
Rio de Janeiro RJ
Nível de Ensino: 
Fundamental I
Contato:
janarusseff79@gmail.com 

Apresentação

O projeto foi desenvolvido, durante as aulas regulares de Teatro, com duas turmas de 5º ano do Ensino Fundamental I do Colégio QI. A escola é particular e tem em seu currículo obrigatório o ensino do teatro para as turmas do  4º e 5º anos do Ensino Fundamental. No 5º ano, a escola orienta que finalizem o ciclo apresentando uma encenação.

Sabendo que muitas vezes o compromisso com a montagem de um espetáculo pode reduzir o ensino do teatro à simples tarefa de produção de espetáculos, optei por desenvolver o processo de montagem usando como referência metodológica o “Processo Colaborativo”, sistema de criação coletiva muito recorrente em grupos contemporâneos como o Teatro da Vertigem, Uzyna Uzona, entre outros.  Nesse processo a construção do texto e da encenação caminham juntas, e são concebidas a partir do jogo do ator, os  alunos/atores são responsáveis por criar todos os elementos da encenação – texto, cenário, figurino, trilha sonora e interpretação.

A intenção era que a montagem não fosse calcada no “ensino tradicional” do teatro, em que os alunos apenas reproduzem convenções e técnicas teatrais - decoram seus textos, obedecem às marcações pensadas pelo professor e apresentam uma peça. O jogo teatral seria o centro deste processo, a mola motriz do aprendizado e da criação,  uma ferramenta que estimulasse os alunos a organizarem um discurso cênico que explore a utilização dos diferentes elementos da linguagem teatral. O trabalho pretendia colocar o aluno no centro criativo do processo;  autor e pesquisador do fazer teatral e o professor como um orientador;  que intervém no jogo sem impor um caminho e diminuir a liberdade de invenção dos alunos/atores.

A fim de apresentar o passo a passo da montagem de um espetáculo teatral e em consonância com o Plano Pedagógico da Escola, cujo tema era Cidadania,  foi escolhido o conto "A pequena vendedora de fósforos" de Hans Christian Andersen.   O projeto aconteceu em parceria com a biblioteca da escola e com a professora de Língua Portuguesa. Com duração de sete meses o mesmo foi organizado nas seguintes etapas de trabalho:

  • Apresentação, estudo e reflexão do conto
  • Improvisos e dramatização da história
  • Criação coletiva do texto teatral
  • Produção
  • Apresentação.

 Objetivos

  • Potencializar a percepção sensível e a imaginação criadora.
  • Desenvolver o fazer teatral pela experimentação lúdica e expressão criadora.
  • Apropriar-se do conceito de Jogo Teatral e dos seus elementos constitutivos: ação dramática, espaço cênico e personagens.
  • Desenvolver o interesse por diferentes manifestações cênicas.
  • Apresentar o passo a passo da montagem teatral a partir do processo de Criação Coletiva

 Descrevendo a trajetória

O projeto aconteceu em   7 meses e foi organizado nas seguintes etapas de trabalho:

  •  Apresentação, estudo e reflexão do conto " A Pequena Vendedora de Fósforos":

 Na biblioteca, da escola os alunos foram apresentados ao projeto. As turmas receberam a proposta com muito entusiasmo, pois ficaram fascinadas com a possibilidade de montarem uma peça de teatro que seria totalmente criada por eles.

A turma entrou em contato com a obra  “ A pequena vendedora de fósforos”, de Hans Christian Andersen, através de uma  contação de história realizada pela bibliotecária Eliane Garcia. Ao final da história, comovidos com o triste destino da protagonista, propuseram que o final fosse mudado. E ali mesmo, votaram para que o desfecho fosse feliz. E então, depois de muitas propostas,  a peça passou a se chamar “Um final feliz para a pequena vendedora de fósforos”

  •  Improvisos e dramatização da história:

Durante as aulas os alunos eram convidados a improvisarem a história da “Pequena Vendedora”. Vivenciando e questionando os caminhos trilhados pela protagonista da história os alunos foram estimulados a pensar: Como poderiam mudar a vida daquela pequena vendedora? Como criar um novo final para esta história?

 Este foi um momento muito interessante pois, a partir do drama vivido pela  “Pequena vendedora de fósforos” eles conseguiram fazer um paralelo com a situação das crianças pobres de hoje em dia,  que precisam trabalhar para ajudar na renda da família. Citaram as crianças que fazem malabares no sinal, que vendem suas balas nos ônibus e trem e que até mesmo ,realizam pequenos furtos para sobreviverem.

A estrutura de peça foi  construída no período de cinco aulas; este processo foi baseado no conceito de experimentação e criação de jogos a partir dos indutores - espaço, imagem, personagem e texto - de JeanPierre Ryngaert. A peça surgiu, espontaneamente, no decorrer do processo, na forma de breves roteiros e falas improvisadas, fruto das relações empreendidas durante a realização dos jogos.

Ao final de cada aula, foram feitas rodas de conversa para ponderarem sobre as ideias apresentadas, a partir da reflexão da plateia, as cenas eram repensadas e novas propostas eram acrescentadas.

  •  Criação coletiva do texto teatral:

Finalizado o momento de criação prática,  era a hora de passar as ideias para o papel e produzir o texto escrito da peça. Para essa etapa, houve a parceria, com a professora de Língua Portuguesa. Em suas aulas, ela trabalhou o gênero dramático, explicando os elementos e a estrutura de um texto teatral para que nas aulas de teatro pudessem escrever a peça.

O início desta atividade foi um pouco conturbado, pois o simples fato de terem de escrever fez com que, a princípio, reclamassem bastante. Aliás, o que eu mais ouvia era que aula de teatro não era para escrever e sim para se divertir. Como lidar com isso?

Diante dos fatos, achei importante conversar com eles antes de iniciarmos os trabalhos. Falei da importância de registrarmos por escrito nossas ideias para que não se perdessem, uma vez que só iríamos apresentar a peça no final do ano. Para esta questão, eles tiveram logo uma resposta na ponta da língua, pois juraram que lembrariam de tudo.  Concordei de imediato; afinal contra tais fatos não havia argumentos. Mas, falei que este momento era importante também para organizarmos e melhorarmos nossas ideias, pois queríamos uma apresentação muito boa  e não uma apresentação “mais ou menos”.  Enfim, depois de uma aula inteira de conversa, iniciamos a produção escrita.

Para a minha surpresa,  o desenrolar da atividade foi excelente. À medida em que  transcreviam as cenas, lembravam dos improvisos, das falas, dos elementos da encenação e as ideias borbulhavam.

Eles liam e reliam os diálogos tentado aprimorar a criação inicial. O resultado foi acima do esperado.

  •  Pré-produção do espetáculo :

Com o texto em mãos, iniciou-se preparação da encenação. Foi organizada uma leitura dramatizada  para que vissem concretamente o resultado daquele trabalho inicial. Após a leitura, cada aluno teve a oportunidade de escolher a equipe em que gostaria de trabalhar nesta etapa: Interpretação; Sonoplastia; Iluminação;  Cenografia; Figurino e Programação Visual.

A pré-produção foi o momento em que as equipes esboçaram suas ideias iniciais para a encenação.  A cada aula, os grupos apresentavam o progresso de seus trabalhos para a mim e para a turma. O ponto positivo, foi o contato individual com os alunos, uma vez que eu sentava com as equipes para conversar sobre suas ideias e sugestões e todos falavam um pouco sobre sua contribuição para o projeto.

Esta etapa durou dois meses. Foi um trabalho intenso, mas extremamente produtivo. A oportunidade de os alunos escolherem uma atividade que pudessem trabalhar, sem necessariamente atuar, foi muito positiva. Os alunos mais tímidos se engajaram de uma maneira bastante efetiva. Naquele momento, todos viram a oportunidade de participar da apresentação e fazerem parte daquele processo, respeitando suas habilidades e interesses. Em geral, as turmas souberam trabalhar com as diferentes atribuições com responsabilidade, seriedade e autonomia. Minha função foi coordenar e orientá-los a partir de suas propostas.

  •  Produção :

Momento de executar as ideias levantadas na fase anterior.  Equipe de interpretação, iluminação e trilha sonora passaram a ensaiar juntas. E as equipe de cenário, figurino e programação visual iniciam a confecção de seus projetos.

  •  Apresentação:

As turmas realizaram a apresentação da peça no auditório do colégio. Eles fizeram duas apresentações, uma para os alunos do fundamental I e outra para os pais e responsáveis. A estreia do espetáculo foi muito importante, pois os alunos viram ali a conclusão do processo e puderam compreender a real dimensão do que haviam criado: uma obra de arte fruto exclusivo de sua criação. Este foi o momento de compartilhar com a plateia a experiência vivida, resultado de um processo instigante e prazeroso, rico em experiências positivas.

 Os resultados

 O resultado final deste processo foi a produção do livro (um por turma) com o texto da peça e a apresentação do espetáculo no auditório do colégio.

 Avaliação

 Entendendo o aluno como protagonista deste processo criativo, o projeto foi calcado na avaliação permanente dos alunos. Ao final de cada aula, eram organizadas rodas de conversas em que eles refletiam sobre os atividades e pontuavam seus progressos ou dificuldades. Era um espaço democrático que servia muitas vezes para que pudéssemos rever e analisar o caminho que estávamos construindo. Todos as decisões eram tomadas de maneira coletiva; desde a mudança do final da história até a escolha dos elementos da encenação. No início a participação era tímida, mas a medida que se sentiam confiantes e se viam contribuindo com o desenvolvimento do projeto a participação aumentou.

Após a apresentação do espetáculo foi realizada uma última roda de conversa, em que os alunos puderam avaliar e refletir o resultado do processo. Este momento foi muito importante, pois oportunizou dizer ao outro o que se viu, o que sentiu e o que se pensava, além de ajudar a organizar e entender o processo de trabalho.

O projeto permitiu que os  alunos construíssem, a partir de suas experiências e vivencia de mundo, a escritura cênica de maneira coletiva onde o jogo do aluno/ator foi a mola motriz da criação. Esta experiência não ficou centrada na preparação de uma apresentação teatral, mas em um processo colaborativo que propiciou a ampliação de seu repertório estético e cultural.

 Refletindo sobre o seu trabalho

Este processo foi muito gratificante, pois pude trabalhar os alunos de maneira coletiva. Pela primeira vez me propus a desenvolver um trabalho que fosse totalmente centrado na criação do aluno. Ao invés de assumir a postura de um diretor teatral tradicional, que tem toda a concepção do espetáculo pré-determinada em sua cabeça, assumi a figura de um encenador/orientador que propõe e conduz o jogo sem impor soluções que diminuam a liberdade de criação dos participantes. Sem dúvida aprendi bastante, pois estava aberta ao novo e disposta a pensar e repensar a minha prática. Consegui trazer para a sala de aula a minha experiência de atriz; pertencente a um grupo teatral que cria seus espetáculos de maneira colaborativa. O que antes parecia muito distante se mostrou perfeitamente possível. Assim como nós artista contemporâneos temos algo a dizer com nossas criações, nossos alunos também ao criarem um produto artístico fruto de suas reflexões e ponto de vista.

 Referência Bibliográfica

  - ANDERSEN, Hans Christian . A pequena vendedora de fósforos. Download em : http://www.virtualbooks.com.br/v2/ebooks/pdf/00817.pdf 

-ARAÚJO, Antônio. A Gênese da Vertigem- O Processo de Criação de O Paraíso Perdido . 

-BRANDÃO, Carlo Eduardo Leite. Grupo Galpão - Diário de Montagem. UFMG, 2003 

-RYNGAERT, Jean-Pierre. Jogar, representar: práticas dramáticas e formação e  Jogo Dramático No Meio Escolar.

- SPOLIN, Viola. Jogos Teatrais – O fichário de Viola Spolin e Jogos Teatrais na Sala de Aula - Livro do professor.

 Observação:

Para apresentar o conto a ser trabalhado com a turma foi realizada uma contação de história na biblioteca da escola. Os livros da Viola Spolin de J. P. Ryngaert foram fonte de pesquisa para orientar a prática em sala de aula:  jogos e exercícios teatrais utilizados para a criação do espetáculo. Os livro de Antônio Araújo e Carlos Eduardo Brandão foram fonte de inspiração metodológia e processual para orientar o processo de montagem colaborativa com a turma.

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