Relatos de Experiência

Conheça aqui a prática de professores no ensino do Teatro na educação básica! Compartilhe também a sua prática. Conte como foi realizado o seu trabalho em sala de aula de forma simples e didática e sirva de inspiração para outros professores.

 

A encenação teatral e a linguagem poética como ponto de partida para a escrita e a compreensão textual

Escrito por Luka Severo
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Escola: Colégio Adahil Barreto - Rede Pública Municipal
Cidade: Iguatu, CE
Nível de Ensino: Ensino Fundamental - 6º ao 9º ano
Contato: lksevero@gmail.com

Este relato se configura como fruto de uma experiência vivenciada com estudantes do 8º ano do Ensino Fundamental II do Colégio Adahil Barreto em Iguatu – CE, no período de Setembro e Outubro de 2014. Iguatu fica localizada na Região Centro-Sul do estado, a 388 km da capital do estado, Fortaleza e, configura-se como o principal polo econômico da região.

O colégio Adahil Barreto se localiza em um dos bairros periféricos da cidade e atende uma clientela de classe média vinda em sua maioria de outros bairros. Este colégio é dos mais antigos da cidade com 50 anos, sendo referência em suas atividades culturais e incentivo ao aprendizado. Atividade de mais destaque da instituição é a Semana Cultural, que conta com jogos, gincanas, atividades esportivas e artísticas.

A mesma se desenvolveu a partir da interdisciplinaridade entre Língua Portuguesa e Artes onde a preocupação com a escrita das palavras bem como o gosto pela leitura de poesia e a prática teatral na escola serviram de mote inicial.

 

OBJETIVOS:

• OBJETIVO GERAL: Estimular o gosto pelas Artes (teatro e poesia) bem como a leitura fluente e a escrita correta, a partir de estudo, análise e produção de poemas com estudantes das turmas de 8º ano do Colégio Adahil Barreto, Iguatu - CE.

• OBJETIVOS ESPECÍFICOS:

- Estimular os alunos a desenvolverem o gosto pela leitura em geral através da compreensão da linguem poética;

- Instigar os alunos a lerem poesia com mais frequência;

- Tornar frequente a prática e a apreciação de Teatro e Poesia;

- Estimular aos alunos fazerem sempre conexões daquilo que leem com seu cotidiano;

- Realizar em sala de aula uma produção escrita de poesias;

- Promover um concurso de poesias entre os estudantes;

- Lançar um livreto, em parceria com o SESC-IGUATU, com as poesias produzidas em sala de aula, e escolhidas para tal;

- Promover encenações teatrais de poesias na escola.

O PROCESSO 

Para a realização deste projeto, partimos do pressuposto de que a dificuldade de leitura, escrita e compreensão é bem recorrente entre os alunos nesta modalidade de ensino (Ensino fundamental II – 6º ao 9º ano). Sendo assim, resolvemos nos utilizarmos da interdisciplinaridade das Linguagens e Códigos: Língua Portuguesa, Artes e Inglês, para tentar chamar a atenção dos alunos.

Como estímulo para o desenvolvimento deste projeto e da participação dos alunos, foi promovido um concurso entre os discentes com o objetivo de instigar a produção de poemas a partir dos que foram trabalhados em sala de aula. Os escolhidos foram publicados em um livreto pela unidade do SESC-IGUATU, e encenados, por estudantes da escola escolhidos pelos autores, dentro do projeto Performance Poética que acontece mensalmente como plano de ações culturais da instituição. O projeto tem como objetivo o incentivo à produção poética, através do lançamento mensal de livretos de poesia, com distribuição gratuita.

Através de realização de debates em sala de aula acerca dos conceitos de poesia, Iniciou-se o trabalho de produção escrita, levando em consideração a criatividade dos estudantes.

Buscamos fazer com que os alunos refletissem sobre suas inquietações pessoais, e expressassem-nas através da escrita, tendo como base a pergunta: “Sobre o que você quer falar?” Deixamos que eles ficassem a vontade para falarem de suas vidas e de seus desejos, pois acreditamos que um bom assunto é aquele que esta mexendo com você ultimamente. Trabalhando assim, sob a luz da coreografa alemã Pina Bausch, que acreditava em um processo criativo que estive ligado intimamente com a vida do criador exigindo que o mesmo possuísse um conhecimento de si e do espaço em que está inserido, assim para instiga-los ela Bausch trazia perguntas que os fazia pensar nesse contexto. De acordo com TOSTA: 

“As perguntas que lança, muitas vezes são difíceis de responder, por exemplo, “Faça alguma coisa que te deixe envergonhado”, "Mova a parte favorita do seu corpo”; “Como você se comporta quando perde alguma coisa?”, “Escreva seu nome com um movimento”, dentre outras. (TOSTA, 2013).

Neste projeto, ao instigar os alunos dizíamos que estariam à vontade para escrever: “Pode ser qualquer coisa, qualquer sentimento, que sirva para definir um tema de sua preferencia”. Acreditamos que ao falar sobre suas vivências tornaria tanto a escrita quanto a encenação mais fluidas e prazerosas para os mesmos. Após ter definido o tema de sua poesia, nós os estimulamos a anotar várias palavras que tenham a ver com o assunto. “Não precisa pensar muito. Brinque de rabiscar palavras. Quanto mais, melhor. Depois você escolhe as preferidas”. Era de suma importância que eles estivessem cientes de que não precisava acertar logo de primeira. É justamente a vontade de acertar de primeira que “emperra” o pensamento, e que ele está livre para escrever e apagar o que quiser, mudar tudo de lugar.

Com a ajuda da equipe gestora da escola escolhemos dez poesias que seriam encenadas e publicadas no livreto produzido pelo SESC-IGUATU, as poesias retratavam variados temas: amor, família, locais de origem - identidade, desejos.

REFLETINDO SOBRE O TRABALHO: 

COISAS QUE SE PERDEM

Os garfos, as flores, as juras de amor, a felicidade... Assim como objetos... tudo isso se perde.

Mas não só os objetos se perdem, mas também o amor pelo outro em todas suas vertentes...

Se perde nas profundezas de uma alma dolorida. A pessoa que a gente mais ama se perde, se vai

E leva com ela tudo [...]. Principalmente a pessoa que a gente mais ama se perde nas profundezas da alma dolorida.

Aluno do 8º ano “C”, Lucas da Silva Patrício.

A maior dificuldade deste projeto foi chamar a atenção dos alunos para ouvir, ler e escrever poesia, bem como, fazê-los entender como suas produções seriam levadas para uma cena teatral, já que muitos nunca haviam vivenciado uma apresentação teatral e nem a apreciação e criação de poemas por motivos diversos. De acordo com Mermelstein (2015):

Poesia virou mito em nossas salas de aula. De modo geral, observamos resistências na escola em ler, interpretar, criar e recriar poemas. Poesia nos remete ao passado, coisa de nossos avós que declamavam para as visitas ou recitavam versos nas aulas de língua portuguesa. (disponível em: http://www.crmariocovas.sp.gov.br/lei_a.php?t=020#artigo acesso dia 28 de maio de 2015).

Apesar dos obstáculos apresentados como: carga horária que deveria ser cumprida nas disciplinas, falta de interesse e descrença dos alunos, bem como, indisponibilidade para ensaiar, o projeto foi realizado com um número recorde de poesias escritas o que fez com que os alunos e a equipe gestora ficassem satisfeitos com o resultado. Todos se sentiram muito estimulados e o interesse, tanto pela leitura quanto pelas artes em geral, cresceu significativamente.

Tivemos dez poesias selecionadas, encenadas e publicadas, a saber: “HIARISTÇA KELLY” do aluno Átyla Holanda Alves; “AMIZADE” escrita por Lívia Carlos Gomes; “O BRILHO DA ESTRELA” da aluna Jéssica Avelino; “TRISTE LUGAR” do aluno Gabriel; “COMO EXPLICAR O AMOR” escrito pela aluna Vanessa Felipe da Silva; “NAVIO” da aluna Ana Rita; “APENAS AMIGOS” escrita pela aluna Ariane Lima e; “COISAS QUE SE PERDEM” do aluno  Lucas da Silva Patrício.

De acordo com os alunos-poetas percebemos que o processo foi proveitoso e positivo, pois, nos dizeres do aluno Gabriel do 8º ano “D”:

“[...] escrever e ver suas palavras sendo encenadas por outras pessoas, deixa a gente muito feliz. Ver o nosso trabalho sendo valorizado através do teatro. Criar o cenário, pensando no que a gente vai colocar e saber que aquilo faz parte da gente, foi a gente que criou, deixa a gente muito feliz. A apresentação foi muito bonita.”

Acreditamos que este projeto demonstra que o diálogo entre as linguagens é de suma importância “e faz com que os alunos sejam estimulados a escrever e, ainda, a gostar de teatro”, como ressaltou Nayara Araújo, coordenadora de Cultura do SESC-IGUATU. Dessa forma, a articulação das narrativas pessoais através de suas experiências vividas direcionadas para a criação de poemas e, destes, para a encenação, possibilitou ampliar os modos de ser e de interpretar o mundo, questões que consideramos primordiais para o ensino da Arte.

FONTE BIBLIOGRÁFICA: 

TOSTA, Evily. Características das obras de Pina Bausch. Disponíevl em: www.caleidoscopio.art.br/cultural/danca/danca-contemporanea/pina-bausch-caracteristicas.html. Acesso em 20/10/13.

TRAJANO, Rosângela. A importância da poesia no ensino fundamental. Disponível em: www.rosangelatrajano.com.br/index.php/artigoseduc1?id=37 Acessado dia 16 de maio de 2015.

REVERBEL, Olga (1989). Um caminho do Teatro na escola. São Paulo: Scipione.

REVERBEL, Olga (1979). Teatro na sala de aula. Rio de Janeiro: José Olympio.

REVERBEL, Olga (1974). Técnicas dramáticas aplicadas á escola. São Paulo: Editora do Brasil.

NEDER, Fernando. CONTATO IMPROVISAÇÃO: Origens, influências e evolução. Gens, fluências e tons. Rio de Janeiro, 2005.

 
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