Relatos de Experiência

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Improvisações Cênicas e suas contribuições para a educação especial

Escrito por John Karllus Paula
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Escola: Escola Estadual de Educação Especial Risoleta Neves
Cidade: Ituiutaba/ Minas Gerais
Nível de Ensino: EJA
Contato: johnkarllus@yahoo.com.br

Apresentação

O projeto surgiu a partir das minhas reflexões durante as aulas do Mestrado em Artes Cênicas (UFU), através das disciplinas que envolviam atividades com o corpo, e foi assim, conversando com minha orientadora que expus a necessidade de desenvolver uma atividade que colaborasse com a fala, com os movimentos corporais e que tornasse os alunos da educação especial mais autônomos. Então, tive a ideia de trabalhar com improvisações teatrais dentro da sala de aula.

Minha formação inicial era em artes visuais, portanto nunca havia trabalhado teatro com meus alunos, mas o despertar proporcionado pela pós graduação mudou minhas concepções, o que me fez sentir confiante para elaborar oficinas de teatro que funcionassem em cinquenta minutos de aula uma vez por semana.

O trabalho foi planejado da seguinte forma:

  • Primeiro oficinas com jogos, que chamamos de ‘brincadeiras’;

  • Após o contato com as ‘brincadeiras’ passamos a criar histórias de princesas e castelos;

  • Os alunos da EJA 3 puderam opinar sobre o que gostariam de fazer, e foi assim, ouvindo e deixando acontecer os improvisos que chegamos a história de Cinderela.

Com a história definida iniciamos os ensaios no mês de fevereiro de 2015, sem textos para decorar, apenas reforçando marcações para relembrar o conto de fadas. Foram três meses de ensaio até a estreia, que aconteceu no pátio da escola, onde um canal local de televisão estava presente fazendo uma reportagem sobre nosso improviso.

Após aparecermos na televisão fomos convidados para apresentar a improvisação em várias escolas da cidade, além de viajarmos para Uberlândia, onde participarmos de uma Mostra de Teatro Estudantil. Com isso, os alunos passaram a ter autoconfiança, autoestima elevada e autonomia, proporcionados pela liberdade de improvisação.

O projeto ainda não finalizou, pois continuamos apresentando a peça, e a nossa intenção é criarmos um grupo que aos poucos irá se profissionalizar.

A turma da EJA 3 é composta de alunos da faixa etária entre 17 a 40 anos, cada um com uma deficiência intelectual distinta.

A escola atende um público em sua maior parte carente financeiramente, e o acesso a cultura é oferecido pela própria escola, na qual temos mostras folclóricas, e danças em datas comemorativas.

Objetivos

Os objetivos iniciais do projeto eram: contribuir com a melhora na fala, com os movimentos corporais e com a autonomia dos alunos, mas no decorrer do processo de ensaio, estreia e apresentações em outros espaços escolares esses aprendizados foram alcançados, e houve outros ganhos não dimensionados, como por exemplo, a melhora na autoconfiança e na autoestima.

O processo 

No início do ano letivo propus para a turma da EJA 3 um trabalho com improvisação teatral. Expliquei que faríamos várias oficinas, e que depois deveríamos escolher uma história para que pudéssemos ensaiar, e que estrearíamos na escola no mês de maio, e depois poderíamos ir para outras escolas para nos apresentar.

As oficinas aconteceram uma vez por semana no mês de fevereiro, durante este tempo conversamos sobre as diversas possibilidades de encenação, até que chegamos a história de Cinderela. A escolha das personagens aconteceu de forma espontânea. Os alunos tiveram autonomia para escolher qual papel de atuação, segundo a afinidade que encontraram com a personagem. Os alunos mais falantes e extrovertidos, por exemplo, decidiram-se pelos papeis principais enquanto a Fada Madrinha ficou com a jovem mais doce e mais tímida. Restaram para compor o elenco as personagens da Madrasta e suas duas filhas, porém, havia apenas dois alunos, sendo um rapaz e uma moça, e a moça não queria interpretar a malvada, sobrando ao rapaz essa função, portanto, houve uma mudança de gênero, passando de Madrasta para Padrasto. A história foi readaptada, nesse caso, por falta de pessoas para interpretar as personagens.

Com os intérpretes escolhidos, iniciamos os ensaios. Foram realizadas várias versões para o conto, e, a cada versão, testamos novas falas e novos movimentos. Essas marcações foram elaboradas pelos próprios alunos com minha supervisão na condução de ideias. Geralmente, a peça inicia com minha fala, apresentando, cada personagem em sua vez, de acordo com o que já se convencionou no imaginário desse conto. A partir daí, os alunos conseguem desenvolver a história conforme a direção que é traduzida pelo narrador, neste caso, eu.

Os trabalhos que foram desenvolvidos durante nossos ensaios, encontram referência nos quatro grupos de atividades sugeridas por Reverbel (1989). Esta autora em questão propôs que os grupos sejam: atividades de relacionamento, atividades de espontaneidade, atividades de imaginação e por último, atividades de observação e percepção. As práticas de relacionamento que desenvolvemos embasadas, conforme a visão da autora, serviram para adaptar o aluno ao grupo, com exercícios de contato, de aquecimento corporal e apresentação pessoal.

A ideia da improvisação foi apresentada de forma lúdica, a todo o momento as atividades eram apresentadas como ‘brincadeiras’. As aulas eram preparadas de acordo com a observação do humor dos alunos naquele dia, quer dizer, quando um exercício não era aceito, logo era substituído por outro. O desenvolvimento das aulas aconteceu com exercícios de imitação, aquecimento e apresentação de pequenas histórias improvisadas, isto tudo ao som de diversas músicas. O objetivo das oficinas era descontrair, tornando a atuação uma forma de prazer.

Até a estreia foram 9 aulas de cinquenta minutos cada, sendo a maioria dessas aulas em um terreno atrás da escola , cheio de mato e pedras brita, pois por todos os outros espaços dentro da escola atrapalhávamos o bom andamento das outras aulas.

Mesmo com toda a dificuldade, os alunos da EJA3 acreditaram na proposta de um bom espetáculo, então se esforçaram ao máximo para ultrapassar seus limites, e com a ajuda da psicóloga Karla que acreditou no trabalho ganhamos um reforço para a trilha sonora, já que a mesma também é cantora e pode nos auxiliar na escolha do repertório musical.

 A estreia aconteceu com um figurino emprestado pelos próprios professores, e decidimos por não ter cenário, uma vez que, iríamos apresentar em diversos espaços fora da escola.

 

Os resultados

 

  • Apresentação teatral na IV Mostra de Teatro Estudantil, na Universidade Federal de Uberlândia(UFU),em Uberlândia/MG;

  • Apresentação teatral na Escola Estadual Professora Maria De Barros em Ituiutaba/MG;

  • Apresentação teatral na Fundação Espírita Jerônimo Mendonça em Ituiutaba/MG;

  • Apresentação teatral na Escola Estadual Antônio de Souza Martins em Ituiutaba/MG;

  • Artigo aprovado na VIII Jornada Latino Americana de Estudos Teatrais, em Blumenau/SC;

  • Artigo aprovado e apresentação teatral no III SEPEES- Seminário de Prática Educativa e Estágio Supervisionado, na FACIP/UFU, em Ituiutaba/MG;O trabalho ainda continua, neste momento estamos pesquisando outras histórias para podermos criar novas improvisações.

Avaliação

Os alunos aprenderam a dar a vez ao colega, tiveram ganhos com a vaidade, pois a autoestima foi elevada e também os ganhos com autonomia, já que não temos um roteiro pronto e acabado, e a cada apresentação há novas oportunidades de criação.A avaliação foi feita durante todo o processo, as apresentações foram gravadas em vídeos, o que proporcionou aos alunos acompanharem o próprio progresso, que era discutido ao final de cada espetáculo, no qual cada um podia dizer o que havia sentido, e como poderia fazer na próxima apresentação.

Refletindo sobre o seu trabalho

A sala da EJA 3 possui oito alunos, mas apenas cinco quiseram participar, contrariando o meu desejo, que era o de ter todos incluídos na improvisação cênica. Tivemos apenas o envolvimento da psicóloga da escola, que nos ajudou com a sonoplastia, e também nos transportando para as diversas apresentações em outras escolas.

A escola não se envolveu no projeto, do inicio até o momento atual, eu como professor fui o propositor e o executor de todo o espetáculo. Os ajustes foram acontecendo no decorrer das apresentações, quer dizer, quando era possível pedia ajuda a algum colega com figurino ou acessório. Os obstáculos foram contornados pela perseverança em acreditar no trabalho dos deficientes intelectuais.

Referência Bibliográfica

AGRA, Lucio. Fronteira do múltiplo: performance, pedagogia, contemporaneidade In: DUARTE de OLIVEIRA, Maria Rosa; MRAZ, Sandra de C. R.; ACHATKIN, Vera C. (orgs.) Território das artes: ensinar-aprender. Educ/Artgraph/MEC:São Paulo/SP, 2009.

BRASIL. Estratégias e orientações sobre artes: Respondendo com Arte às necessidades especiais. Secretaria de Educação Especial: MEC. Brasília, 2002. Disponível em: Acesso: 16 de novembro de 2014.

FUCHS, Ana Carolina M. Improvisação teatral e descentração. 2005. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS. Porto Alegre/RS, 2005.

JAPIASSU, Ricardo. Metodologia do Ensino do Teatro. Campinas, SP: Papirus, 6ª Ed. 2006.

REVERBEL, Olga. Jogos Teatrais na Escola – Atividades Globais de Expressão. São Paulo, Scipione, 1989.

 ________. Um caminho do teatro na escola. São Paulo: Spicione, 1989.

________. Oficina de Teatro. Ministério da Cultura, Secretaria do Livro e Leitura. Porto Alegre: Kuarup 2002.

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